A Tragédia da Humanidade — Jacob Bronowski

Jacob BronowskiJacob Bronowski (1908-1974) foi matemático, biólogo, historiador da ciência, escritor e poeta. Apresentou uma série na BBC em 1973, que depois virou livro, “The Ascent of Man” (em tradução livre, “A Ascensão da Humanidade” — é conhecido no Brasil como “A Escalada do Homem”), e que inspirou Carl Sagan a fazer a clássica série Cosmos. Só tive a chance de assistir uma parte do primeiro episódio no youtube, mas dá pra perceber como essa série foi inspiradora, através desse vídeo sensacional:

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Existe uma continuação do vídeo acima no canal The Inspiration Journey. Porém, o vídeo foi bloqueado por direitos autorais pela BBC. Provavelmente algum dia o vídeo volte ao ar. Enquanto isso não acontece, achei o texto e traduzi. O que se segue é a transcrição desse vídeo, “A Tragédia da Humanidade”, de Jacob Bronowski:

EletricidadeEste é um mundo governado por especialistas: não é isso o que queremos dizer com “sociedade científica”? Não, não é. Uma sociedade científica é uma sociedade na qual os especialistas de fato fazem as coisas, como a luz elétrica — mas, principalmente, é você, sou eu, quem tem que saber como a Natureza funciona, e como a eletricidade é uma das expressões da Natureza na lâmpada e também em nossos cérebros.

E estamos aqui em um maravilhoso limiar do conhecimento. A “Ascensão do Ser Humano” está sempre oscilando na balança. Há sempre um sentimento de incerteza, se quando o homem levanta o pé para dar o próximo passo, será que vai tropeçar adiante? E o que está adiante de nós? Finalmente a integração, a amálgama, de tudo o que aprendemos em física e em biologia, em direção de um entendimento de onde viemos; do que o ser humano é.

O conhecimento não é um livro de fatos. Acima de tudo, é uma responsabilidade pela integridade do que somos, acima de tudo o que somos como criaturas éticas. Não se pode manter isso se você deixar outras pessoas governarem o mundo por você, enquanto você próprio continua vivendo a partir de uma moralidade obtusa que deriva de crenças arcaicas.

Eu tenho sido tão otimista em relação à Ascensão da Humanidade. Acha que eu vou desistir nesse momento? É claro que não.

Leonardo da Vinci - FetoA Ascensão da Humanidade continuará. Mas não pense que ela continuará através da civilização ocidental como a conhecemos. Estamos sendo pesados na balança nesse exato instante. Se desistirmos, o próximo passo será dado – mas não por nós. Não nos deram nenhuma garantia que Assíria, Egito e Roma não receberam.

Somos uma civilização científica, isto é, uma civilização em que o conhecimento e sua integridade são cruciais. Ciência é apenas uma palavra latina para conhecimento. E estou infinitamente entristecido por me encontrar de repente ao redor de um sentimento de perda terrível dos nervos; um recuo do conhecimento para… para o quê? Para o Zen-budismo; para afirmações do tipo “no fundo não somos realmente animais”; para “percepção extrassensorial” que simplesmente não fazem o menor sentido com o que agora somos capazes de saber.

Autoconhecimento, finalmente reunindo a experiência das artes e as explicações da ciência.

Não fazia muito tempo que eu havia voltado de Hiroshima quando eu ouço alguém dizer, na presença de Szilárd, que “era a tragédia de cientistas que suas descobertas foram usadas para destruição.” — Szilárd respondeu (já que ele, mais do que ninguém, tinha o direito de responder) que “não era a tragédia de cientistas, é a tragédia da humanidade.”

hydrogen-bomb

Há duas partes do dilema humano:

Uma é achar que o fim justifica os meios. Aquela filosofia de apenas-apertar-o-gatilho. Aquela deliberada surdez ao sofrimento se tornou o monstro da máquina de guerra.

skulls of the victims of the Khmer Rouge occupation of CambodiaA outra é a traição do espírito humano, a assertiva do dogma que estreita a mente e transforma uma nação, uma civilização, em um regime de fantasmas.
Fantasmas obedientes, fantasmas torturadores.

Disseram que a ciência irá desumanizar as pessoas e transformá-las em números. Isso é falso; tragicamente falso. Veja por si mesmo. Este é o campo de concentração e crematório em Auschwitz. Este é o lugar onde as pessoas se tornaram números. Neste lago foram despejados as cinzas de cerca de 4 milhões de pessoas. E isso não foi feito por gás. Foi feito por arrogância, foi feito por dogma, foi feito por ignorância.

Jacob Bronowski Auschwitz

Jacob Bronowski no que era o campo de concentração em Auschwitz.

Quando as pessoas acreditam que possuem conhecimento absoluto, sem nenhum teste na realidade, é assim que se comportam. É isso o que as pessoas fazem quando aspiram ao conhecimento de deuses.

A ciência é uma forma muito humana de conhecimento. Estamos sempre nos limites do que é conhecido. Cada julgamento na ciência fica na beira do fracasso, e é pessoal. A ciência é um tributo ao que podemos saber, apesar de sermos falíveis.

No final, as palavras foram ditas por Oliver Cromwell:

“Eu lhe suplico nas entranhas de Cristo,
pense que é possível você estar enganado.”

Eu devo, como cientista ao meu amigo Leó Szilárd, como ser humano aos muitos membros da minha família que morreram aqui: permanecer aqui como um sobrevivente e como uma testemunha.

Temos que nos curar da ânsia de conhecimento e poder absolutos. Temos que diminuir a distância entre a ordem de puxar o gatilho e o ato humano.

Temos que… tocar as pessoas.

jacob bronowski auschwitz

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Ao final do vídeo, uma cena inesquecível: Jacob Bronowski abaixa pra pegar a lama do lago em Auschwitz — exceto que não era lama: eram cinzas humanas.

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Sobre Leandro Ricardo

Student. Book eater. Early 20's. I write about things no one cares. https://www.youtube.com/c/leandroricardo27
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