O Livre-arbítrio Realmente Existe?

matrix pilula azul vermelha

Hoje eu quero falar sobre o livre-arbítrio.
É desconcertante toda vez que seu pensamento chega à uma conclusão totalmente contrária daquilo que você pensou durante toda a vida. Foi o que aconteceu comigo hoje, por isso estou escrevendo estas linhas.

Eu nunca gostei de uma visão determinista da vida (ou seja, a ideia de que tudo já está destinado/determinado a acontecer de tal maneira e não possuímos nenhuma liberdade sobre nossas ações.)
No entanto, com este post quero colocar uma parte do livre-arbítrio em questão e explorar as consequências.

Pra começar, vamos imaginar a seguinte situação – que encontrei aqui (do excelente livro-que-ainda-não-li “O Mundo de Sofia”):

– Vamos novamente voltar àquele menino da Idade da Pedra que viveu há trinta mil anos. À medida que o tempo passou, ele foi crescendo, atirou sua lança contra animais selvagens, amou uma mulher que deu à luz seus filhos e, pode estar certa, ele também cultuou os deuses da sua tribo. O que você diria: ele determinou tudo isso sozinho?

– Não sei.

– Ou imagine um leão na África. Você acha que ele escolhe ser um predador? Será por isso que ele se atira contra um antílope em disparada? Talvez ele devesse escolher viver como um vegetariano?

– Não, os leões vivem de acordo com a natureza deles.

– Ou de acordo com as leis da natureza. Você também, Sofia, pois você também é parte da natureza. E agora, naturalmente amparada em Descartes, você pode até fazer a ressalva de que o leão é um animal selvagem, não um homem dotado de um espírito livre. Mas, imagine um bebê recém-nascido, uma menina. Ela chora e se mexe. Se não lhe dão leite, ela suga o dedo. Ela tem livre-arbítrio?

– Não.

– E quando essa pequena criança vai adquirir livre-arbítrio? Aos dois anos ela fica correndo por toda a parte, apontando para tudo o que está ao seu redor. Aos três, faz birra e perturba sua mãe e, aos quatro, de repente passa a ter medo do escuro. Onde está a liberdade, Sofia?

– Não sei.

– Quando completa quinze anos, se põe diante do espelho e experimenta se maquiar. É agora que ela tomará suas decisões pessoais e fará o que bem entender?

– Entendo o que você está querendo dizer.

– Esta menina é Sofia Amundsen, ela sabe muito bem disso. Mas ela também vive segundo as leis da natureza. A questão é que ela não se apercebe disso, porque existem inúmeras razões, infinitas razões, por trás de cada coisa que ela decide fazer.

– Acho que não estou a fim de escutar mais.

– Mas você vai pelo menos responder a uma última pergunta. Imagine duas árvores bem antigas num grande jardim. Uma cresceu num local ensolarado, com acesso a um solo fértil e água em abundância. A outra, num solo estéril, sob a sombra. Qual delas, você acha, é a árvore maior? E qual delas terá dado mais frutos?

– Claro que a árvore que teve as melhores condições.

– Segundo Espinosa, essa é a árvore livre. Ela teve liberdade total para desenvolver suas potencialidades intrínsecas. Se, porém, se tratar de uma macieira, ela não terá tido possibilidade de dar peras ou ameixas. O mesmo vale para nós, seres humanos. Podemos retardar nosso desenvolvimento e nosso crescimento pessoal, por exemplo, devido a condições políticas. Pressões externas são capazes de nos tolher. Somente quando “libertamos” as possibilidades que nos são inatas é que vivemos como homens livres. Mas somos tão governados pelo nosso potencial interno e pelas circunstâncias exteriores quanto aquele menino da Idade da Pedra no vale do Reno, o leão na África ou a macieira no jardim.

– Já estou prestes a desistir.

– Espinosa enfatiza que somente um único ser é “causa completa e absoluta” de si mesmo e pode agir em total liberdade. Só Deus ou a natureza é a manifestação livre, “não causal”, desse processo. Um homem pode até aspirar à liberdade de viver imune às atribulações externas. Mas jamais vai experimentar de fato o “livre-arbítrio”. (…)

Não concordo com a visão totalmente determinista de Espinosa, mas vamos pegar um exemplo mais próximo da nossa realidade.

Imaginemos agora alguém que nasceu em uma favela violenta do RJ. Um vizinho dele vende metanfetaminas azuis. Outro é funkeiro. Outro, ainda, já matou várias pessoas. Outros são evangélicos.

É claro que ele possui o potencial de ser um médico, um engenheiro, um jogador de futebol famoso ou um campeão olímpico. Mas a chance de ele cair na vida do crime é imensamente maior, infelizmente. O melhor que ele poderia fazer, nessa situação, é se juntar aos seus vizinhos evangélicos.

Agora imaginemos outra pessoa: o filho de um professor da Universidade de Cambridge. Perceba que a situação é análoga às duas macieiras do exemplo anterior. Ele poderia se tornar um grande músico, se juntando com seus amigos de música clássica que vivem logo ali. Não teria dificuldades de obter um PhD em física teórica, se quisesse; de falar várias línguas. Ou seguir quase qualquer carreira que desejasse.
Claro que ele poderia, também, se tornar um traficante, ou um funkeiro, ou seguir o cristianismo protestante neopentecostal. Mas a possibilidade disso tudo acontecer é extremamente remota. Ele poderia se tornar um assassino, mas acho que podemos concordar que isso dificilmente aconteceria.

Isso nos levanta várias questões:
(1) O que dizer da meritocracia, tão defendida por algumas pessoas do Brasil?
(2) Até que ponto o ambiente em que nascemos molda quem nós somos?
(3) Se tivessemos nascido em um lugar diferente, seríamos pessoas diferentes?
(4) Se um assassino cruel tivesse nascido no Japão, país com um dos menores índices de homicídio do mundo, será que ele ainda seria um assassino?

Procure por estatísticas confiáveis. Os índices de homicídio e criminalidade são muito maiores em ambientes onde as árvores não tiveram condições de crescerem plenamente.
Não estou tentando dizer que criminosos não têm nenhuma culpa, eles devem ser punidos. Mas isso poderia ser evitado, é o que eu estou tentando dizer. Nem sempre, é claro, mas em grande parte, sim, poderia ser evitado.

índice mundial de homicídios

Fonte: Organização das Nações Unidas (ONU) – https://www.unodc.org/gsh/

Vamos explorar essa questão ao máximo: a pessoa, além de ter nascido naquela favela, também sofria abusos dentro de casa, de todos os tipos. Via sua mãe cheirando cocaína todos os dias. Viu seu pai matar sua mãe na sua frente; o primo ser morto pela polícia e etc. Essa pessoa cresce e se torna uma assassina psicopata.

Olhando pelo prisma cristão, essa pessoa mereceria ser torturada por toda a eternidade no “lago de fogo”. Se ela não tivesse passado por tudo isso, provavelmente não teria se tornado assim. Portanto, seria justo?

“Mas ela teve a escolha entre o bem e o mal, e escolheu o mal.”

Olhe muito bem para a imagem anterior. Bom, claro que ela teve uma parcela de escolha, mas essa parcela tenderá a zero dependendo do meio em que viveu. Seria justo Lúcifer copular analmente pela eternidade com tal pessoa, apenas porque, por exemplo, ela teve o azar de ter nascido em uma parte extremamente árida do mundo e não teve nem a chance de florescer, ou de aprender a diferença entre ética consequencialista e ética deontológica?

Acho que agora dá pra entender, espero, a complexidade de tal situação.

Algumas conclusões a que cheguei:

(1) Sim, somos livres, temos capacidade de deliberar sobre nós mesmos, claro. Mas não é uma liberdade total, e alguns têm uma parcela maior sobre seu livre-arbítrio que outros. Alguns conseguem transcender as limitações de sua natureza, e do ambiente em que nasceu, mais do que outros. Uma pessoa que nasceu em más condições e conseguiu se tornar médica, ou tenha chegado a um resultado excepcional em qualquer área, deve ser aplaudida e reverenciada por isso. Muito mais aplaudida do que alguém que nasceu com ótimas condições e apenas seguiu a correnteza do rio da vida, conseguindo sem esforço uma pós-graduação, por exemplo.

(2) A limitada visão cristã não consegue dar conta de tal complexidade. Me convença do contrário, caso eu esteja errado – estou disposto a mudar de opinião sobre tudo.

(3) As pessoas que falam mal de quem defende os Direitos Humanos, muitas vezes, não fazem ideia do que estão falando.

(4) Espero que isso convença você, leitor(a), a tomar as rédeas da vida para si, e a se tornar um pouquinho mais livre. Nascemos em determinados sistemas de pensamento que nos constrangem, nos limitam. Se transcendermos os grilhões que amarram nossas mentes, poderemos criar uma sociedade que de fato entenda melhor a realidade que nos cerca; aliás, entender, também, as raízes da criminalidade. Uma sociedade que faça florescer em cada um a sua potencialidade; uma sociedade capaz de gerar novos conhecimentos e tecnologias que ajudarão as gerações futuras a ter uma vida mais realizada, mais reflexiva, mais segura (para si e para o planeta como um todo) e, espero, mais feliz; uma sociedade, enfim, mais livre – mas nunca totalmente livre, pois o livre-arbítrio é, em parte, uma ilusão.

“Sempre que tiver vontade de criticar alguém, lembre-se de que nem todo mundo teve as oportunidades que você teve.”
– O grande Gatsby. Fitzgerald, F. Scott.

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Você pode deixar as suas próprias conclusões nos comentários, é claro.

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Post scriptum:

Lembrei de um documentário sensacional feito por José Padilha (do Tropa de Elite) chamado Ônibus 174, sobre “o sequestro de um ônibus em plena zona sul do Rio de Janeiro. O incidente, que aconteceu em 12 de junho de 2000, foi filmado e transmitido ao vivo por quatro horas, paralisando o país.”
Sinopse: “A história do sequestro é contada paralelamente à história de vida do sequestrador. É revelado como um típico menino de rua carioca transforma-se em bandido e as duas narrativas dialogam, formando um discurso que transcende a ambas e mostrando ao espectador por que o Brasil é um país tão violento.”

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Sobre Leandro Ricardo

Student. Book eater. Early 20's. I write about things no one cares. https://www.youtube.com/c/leandroricardo27
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