Conhecimento, Crença e Homenzinhos Verdes

Só para deixar claro, este texto foi escrito porque algumas pessoas alegam que “os cientistas não deveriam descartar a possibilidade X já que eles mesmos acreditam em muitas coisas que não podem observar (sic), como buracos negros, big bang, uma espécie se transformando em outra, etc”.

Todos levamos crenças em nosso íntimo. Até mesmo cientistas acreditam em muitas coisas que eles não podem ver com os próprios olhos. Isso não é esquisito? Afinal, não são eles que exigem evidências disto ou daquilo para obter conhecimento confiável da realidade?

Eu, por exemplo, acredito que exista vida em algum outro lugar do universo. Não, eu nunca vi. Tampouco existe o menor indício disso. É apenas uma crença minha. O importante é: ela tem fundamento?

interstellar black hole

Imagem: “Interestelar” (2014)

Um buraco negro [1]. Por definição, nem a luz consegue escapar de seu empuxo gravitacional, por isso não podemos vê-lo. Se nem com os melhores telescópios não é possível observar um buraco negro, então como é possível saber que eles existem de fato?

O que queremos saber é o valor, subjetivo e objetivo, de uma crença. Como uma crença se transforma em conhecimento, enquanto outras não têm o menor fundamento.

Cientistas sabem que um buraco negro existe porque as órbitas das estrelas à sua volta evidenciam a presença de um corpo supermassivo, confirmando o que alguns já haviam deduzido, matematicamente, a partir da Teoria da Relatividade. Nesse caso, uma crença com boa justificação foi confirmada e se transformou em conhecimento. Observação, no método científico, não significa necessariamente ver o objeto com os próprios olhos, mas deduzir sua existência a partir de dados confiáveis e objetivos.

dna 1Não, não vemos um buraco negro, literalmente, com nossos olhos. Igualmente, nunca vimos um átomo, mas sabemos de sua existência por N motivos. Do mesmo jeito, sabemos que a seleção natural molda os seres vivos de acordo com seu ambiente, apesar de nunca termos visto uma mudança radical entre espécies. Da mesma forma, Rosalind Franklin, Watson e Crick não viram a molécula de DNA, mas deduziram sua estrutura helicoidal. Raciocínio, inteligência e inferência de dados.

Agora, alguém poderia dizer: “Eu sei que ETs existem e fizeram as pirâmides. Só o fato das pirâmides existirem e ninguém saber como as fizeram já prova isso. Uma vez eles até falaram comigo por telepatia através de uma tecnologia ultra-avançada.”

Por que isso é merda-de-boi? Em primeiro lugar, vamos assumir que a pessoa não esteja mentindo — isso significa que a pessoa realmente acredita que se comunicou por telepatia com ETs. Em outras palavras: isso possui um alto valor subjetivo para ela. Bom, sabemos que as pessoas podem se enganar. Sabemos que a memória não é totalmente confiável [2]. A pessoa pode ter sonhado e não ter distinguido sonho de realidade. Ou ela pode realmente ter ouvido vozes enquanto estava desperta. Mesmo assim, isso não tem um valor objetivo. Por quê? Porque alguém poderia escutar vozes, mas isso não significaria que essas vozes provêm de ETs. Significa que ela é esquizofrênica.

Naturalmente se conclui que “evidências” subjetivas (ou anedotas) não têm valor na hora de definir a realidade.

Porém, a diferença entre a minha crença em ETs e a crença dessa pessoa, é que, baseado no tamanho inimaginável do universo e na quantidade quase infinita de estrelas e planetas; baseado em como a física e a nucleossíntese estelar forjam novos elementos e os distribuem pelo cosmos; baseado em como a química faz com que esses elementos se juntem para formar, naturalmente, os aminoácidos (moléculas complexas que são os blocos fundamentais da vida) e que eles são abundantes pelo universo [3]; e baseado em como a biologia funciona, é possível (e até provável) que exista vida em algum outro lugar. Isto significa que essa é uma crença com boa fundamentação e justificação.

Agora, dê uma olhada na belíssima imagem a seguir (obrigado, Paint):

diagrama

Perceba que à medida que entramos nos subgrupos a probabilidade tende a zero. Acreditar na possibilidade de vida fora da Terra é uma coisa razoável. Porém, acreditar que essa vida é inteligente, sabe de nós, consegue viajar distâncias interestelares e inclusive veio até o nosso planeta para construir pirâmides e introduzir objetos estranhos em orifícios humanos, contra todas as evidências contrárias? É algo típico do canal pseudocientífico History Channel e cia. É ignorar as distâncias colossais do cosmos e seu limite de velocidade. É ignorar tudo o que aprendemos até agora sobre a psicologia humana. É ignorar que, mesmo que existam ETs a 100 milhões de anos-luz daqui, e que por algum milagre eles conseguissem apontar um super-telescópio para cá, eles ainda assim estariam vendo apenas dinossauros caminhando pela Terra.

it-was-the-aliens-obviously

linha

Notas:

  1. Entenda mais sobre buracos negros
  2. Entenda o funcionamento da memória e suas falhas
  3. Aminoácidos são abundantes pelo universo (inglês)
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Sobre Leandro Ricardo

Student. Book eater. Early 20's. I write about things no one cares. https://www.youtube.com/c/leandroricardo27
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